Projeto Mozão 2018

Foi dada a largada para aquelas afirmações de que o ano todo passou e não se encontrou o famigerado amor.

Ora, você quer me dizer que o ano todo você viveu em prol de encontrar alguém? E que tal parar e observar o quanto de você pode ser encontrado ao longo do caminho, são 12 meses, no nosso caso ainda resta um, ou seja, pouco mais de 31 dias. Tudo pode acontecer, e, como diria a letra de uma canção, “inclusive nada”.

Então, só quero dizer, sinto muito quebrar com as expectativas que você costuma nutrir…O amor não vem porque você usou roupas vermelhas na virada do ano. Ele se apresenta como quem não quer nada, com hora e lugar exatos, você precisa “apenas” se distrair.

viajar de carro

Ah! Também será um tanto feliz quem não quer conhecer ninguém, quem quer tirar um tempo para si, quer aprender um novo idioma e rir de piadas sem graça. Quem quer problematizar pois teremos novas eleições (preparem-se). Há ainda quem conte os dias para o carnaval, quem já saiba boa parte dos feriados/feriadões que teremos.

Com tudo que foi dito, parece que o amor mesmo é você e todos os sonhos que o novo ano permite a você poder concretizar. Olha da janela, como quem não quer nada, mas esperando pelo mundo.

fui pra piscina

Que você seja seu mozão em todos os próximos anos.

Que nós olhemos o mundo como quem tem fome de viver.

Gabriela visita Ah!gnes. 

 

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Ela, um divórcio e uma vida inteira

 

Outubro de 2017.

 

Minha mãe tem sentido incômodos no punho direito, pouco acima da mão. Então me prontifiquei a massageá-la, na esperança de que pudesse aliviar as dores locais, ao menos por ora. Ela aceitou de bom grado, claro. Ao massagear o local, minha vista fora atraída por um detalhe em seu dedo anelar que há muito havia se dispersado da minha mente. Ela ainda tem perfeita no dedo a marca do anel de noivado (coisa de cerca de uns vinte e oito anos atrás). Comentei sobre com ela e achei interessante o fato de essa marca permanecer até hoje, visto que o noivado durara somente seis meses, mas não há vestígios da marca do anel de casamento, que durou sete anos. Isso nos fez recordar que, embora estando separados há vinte e dois anos, ele com outra família, em outro estado e ambos sem se falar há tanto tempo, etc, ainda continuam casados no papel. Ela me contara certa vez que ele disse, antes de se separarem, “que jamais daria o divórcio a ela, que mesmo longe, ela continuaria sendo ‘dele’ “. 

Sempre tive ranço (empregando já o vocabulário popular do internetês) desse tipo de homem macho que acha que mulher é aquele par de brincos que a gente guarda num potinho pra não perder e ninguém poder tocar. Que trata como dono, colocando coleira, restrições, olhando de cima, como pai (não no sentido de cuidar, afetivamente, mas no sentido de decidir por ela e tratar com supremacia, sem dar-lhe a chance de decidir sobre seus próprios atos, caminhos etc).

Sempre que tocamos nesse assunto, não consigo me conter e acabo sugerindo a ela que entre com o pedido de divórcio. Sempre insisto nesse assunto quando falamos sobre, e houve um tempo em que ela concordou, mas essa semana se deu o contrário: ela discordou. E falou diferente, assim como a expressão que tomou conta do seu semblante. Ela disse que não. Eu respeitaria sua decisão, se o motivo não abrangesse um dos assuntos que mais mexem comigo, que me viram do avesso, me doem pelo poder de injustiça social que exerce sobre nós, mulheres. Além do fator “propriedade” do tratamento dele para com ela, o primeiro a me causar rebuliço, ela disse que não queria pedir o divórcio porque se sentiria culpada de, quando tivesse de falar a/com outras pessoas, preencher documentos, formulários ou mesmo em conversas informais, que seria divorciada, olharem-na diferente, como se ela tivesse culpa de algo, ter feito algo para o casamento acabar. Como se fosse culpa dela.

Não, ela nunca pareceu ter esse tipo de receio, sempre foi o tipo de mulher que “foda-se, eu faço sim!”. Mas não naquele dia. Eu, calada, enquanto digeria aquela informação que descia quadrado, retangular, triangular e espinhosa pela minha garganta, provocou-me uma série de pensamentos ambulantes, tumultuando-se de uma só vez na minha cabeça. Eu entendo que nenhuma mulher nasce desconstruída, isso leva tempo, assim como leva tempo as pessoas se conscientizarem sobre a desigualdade de gênero e diversas outras coisas. Sei também que às vezes a gente pega uma via de mão dupla que vai, num dia qualquer, contrariar algumas das nossas habilidades de ser de um jeito, de ignorar, de mandar pro inferno, de se sentir durão, de segurar o peso, e então a gente só quer sentar e ficar quietinho, sem mover um dedo, parado, respirando, dando um tempinho de tudo, porque nem sempre dá pra pra dançar o samba e segurar a bandeira ao mesmo tempo. Não que ela sofra com isso ou viva pensando sobre. Mas seu olhar naquele momento, seu tom de voz ao falar sobre, não é coisa de quem se sente satisfeito com algo. Somente ignora. Acho que foi o que se deu naquele dia com a minha mãe. “Ah, deixa isso pra lá, faz tanto tempo, não tem importância”, talvez tenha pensado ela. E eu poderia deixar pra lá. Mas não quis. Nem quero.

Aproveito esse turbilhão pra explanar um pouquinho alguns personagens que gosto e dos quais me lembrei naquele meu momento. Parecia que a vida estava imitando a arte (ou vice-versa) bem na frente dos meus olhos.

Lembrei-me de imediato do filme “Comer, Rezar, Amar”, na trajetória em que a protagonista, Liz Gilbert, explora o antes, durante e o depois do seu divórcio, em como algumas pessoas reagem a essa informação, em como ela lida com essa realidade psicológica, sentimental, social, e familiarmente desde o início do filme, juntamente com um olhar aberto e espiritualizado sobre o outro lado do destino, das escolhas, da vida que uma mulher pode levar para além de somente um casamento.  É sobre descobrimento, coisa que infelizmente nem toda mulher tem ou vai ter a chance de palpar. A princípio, parece bobagem exagerada  e um tanto conservadorista de algumas personagens, inclusive daquela senhorinha italiana que olha estranho ao hospedá-la e ao observar o seu dedo anelar esquerdo – vazio.

Mas depois você sente o quão mais impactante é a coisa quando Liz chega a Bali e conhece Wayan (imagem), uma curandeira local, e sua filhinha, Tutti. Wayan sofreu com um relacionamento abusivo nas mãos do seu ex-marido. Segundo a própria, no filme e no livro (que são baseados numa história real da escritora Elizabeth Gilbert), quando uma mulher se divorcia em Bali, ela fica sem nada, tudo vai para o marido, incluindo os filhos (não vou sondar sobre esse aspecto social local no texto, pois pouco sei sobre, se ainda prevalece, etc, e também para evitar prolongamentos):

cra 5Cena do filme “Comer, Rezar, Amar” (Sony Pictures – 2010)

Também me passou vagamente pela cabeça outro personagem marcante: Ross Geller, de Friends (não vou dar spoiler a quem não assistiu, para não ferir os sentimentos da surpresa). Em suma, para não ficar vago, Ross se envolve, durante toda a série, em três casamentos, o que marca a personagem com o fator “divórcio”. Apesar da comicidade do seriado em torno disso, o trauma dele com casamentos falhos é visível e enfatizado em diversos episódios:

Friends divórcios.jpgCena do seriado “Friends” (Warner Bros Television/NBC ~ 1994-2004)

Naquele breve instante, só consegui pensar em como enredos que acompanhei com surpresa, impressionismo e até divertimento, estavam se materializando do meu lado. A questão que fica e perturba é: por que essa aversão social ao divórcio? Será o desmonte de planos, colocados numa lista, sonhados, expostos sobre a mesa e divididos ao encontrar aquela pessoa com quem se casa, coisa sonhada desde criança por tanta gente?

Ou, sendo ainda mais enfática quanto a esse texto: que como com relação a nós, mulheres, nos olham como sortudas ao nos casarmos, que olham para nós como aquelas que conseguiram encontrar o eldorado e ai zeramos a vida, porque esse fora nosso objetivo-mor? Mais que isso: que precisamos, pois somos dependentes disso, de um homem como suporte em casa. Uma mulher sozinha, sobretudo por escolha, ainda pode gerar certo estranhamento. Por quê? Ou, no caso do receio da minha mãe, “uma mulher divorciada? O que houve?”. Sim, ainda existe, pois há aqueles que prezam por um casamento mantido de pé, mesmo que falho, sem amor, sem afeto, sem companheirismo nem laços, simplesmente para manter a ordem das aparências sociais.

Uma mulher sozinha, ainda mais depois dos quarenta, dos cinquenta, “não cai bem” ou seja em que idade for, divórcios são socialmente sinal de má sorte, não é bonito para nós. Sim, ainda existe. Do contrário, o receio da mulher que criou sozinha a mim e ao meu irmão não existiria. E se é uma mulher mais jovem então, por vezes o divórcio gera questionamentos (já perceberam como é costumeiro não se conhecer bem aquele casal vizinho, mas quando se separam, as más línguas sempre comentam sobre a moça ou o que ela teria feito para o casamento ser danificado?). Não generalizando, mas relatando o “comum” que já vi, ouvi, questionei.

Por que olhariam estranhamente para minha mãe ao relatar um possível divórcio?

Será que a veriam como o pivô da separação? Por quê? Por que alguma mulher se sentiria envergonhada com o fato de não ter ao lado um homem? (não a minha mãe,  especificamente, ela está pouco se fodendo pra isso). Mas por que, em reuniões de família, meus tios ou conhecidos distantes sempre insistem que ela precisa se casar de novo? Por que a chamam de sapatão por ser a única dos irmãos a não estar casada ou num relacionamento? Por que quando ela teve problema de útero policístico e mioma, alguns parentes a disseram que era por “falta de sexo”? O que é uma mulher “sozinha”? Estar “sozinha” significa que ela seja “sozinha”, num sentido de abraçada à solidão? Estar solteira significa estar “encalhada”? Ou simplesmente por preferir, querer, sentir-se bem solteira? O que significa uma mulher sentir vergonha de dizer que está divorciada? Por quê? Por que Wayan (e possivelmente outras tantas mulheres balinesas – e de diversos outros lugares também) foram tão oprimidas por essa desigualdade entre homens e mulheres, historicamente instalada e perpetuante, de forma tão explicitamente clara, mas ainda passível de ser negada a tantos olhos? Como “pequenas” opressões podem ser enxergados com normalidade? Será por acontecerem tão frequentemente que passam a serem considerados “da vida”, porque “ah, acontece.”? Não é normal sermos constantemente associadas à incapacidade de autonomia nem todo questionamento feito em torno disso tudo ser considerado histeria feminina.

Para não parecer que somente critiquei e associarem uma coisa a outra e tratarem com ignorância e estereotipificação feminista, não quero reprovar o ideário de casamentos nem tê-los como algo ruim. Acho bonito até. Sim, são adoráveis quando há afeto acima de qualquer coisa, quando há a doçura de estar sempre ao lado da pessoa amada, quando há companheirismo, divisão e compartilhamento, sem posse, sem julgamentos, sem pressões nem cobranças. Casamento, para quem o escolhe, é pra ser como aquele dito popular, é pra ser um laço – igualitário -, ressalto. De igual para igual. Só me impeli a falar do outro lado, que existe e é tratado com naturalidade. É que existe um lado que não pode ser silenciado.

É claro que sentei e conversei com a mamusca sobre como ela não deve deixar esse tipo de amarras sociais atarem-na (porque o feminismo também tem que chegar à sua mãe e a tudo que a envolve). Depois não falamos mais sobre. Mas não falar mais sobre não significa que ela esqueceu. Nem eu. E vou persistir no aconselhamento ao divórcio, porque nem sua mãe nem minha mãe e nem mulher alguma devia sentir-se pesada nas costas, reprimida, receada, mesmo que num breve momento de conversa, sobre questões que são comumente naturalizadas, mas não passam de construções sociais depreciativas (para nós, na maioria das vezes).

Mas esclarecendo ainda: mainha não se sente presa a ele, menos ainda pelo fato de ainda serem casados no papel (e só no papel). Ela é e sempre foi a mulher mais forte que conheço, que largou tudo num estado grande, caótico e fugiu pra outro para proteger os dois filhos e a si mesma. O caso é que, no instante em que ela disse aquilo, soou como vergonha. De si, de ter um casamento falho, de como seria encarar isso com um divórcio nas mãos. Seria como dizer que “agora acabou mesmo”. Aquele ponto final tão camuflado, adiado, esquecido, entraria finalmente em cena. Assim soou sua voz. E eu não queria que soasse. E, claro, eu não controlei o furor, o lidar com aquelas palavras: “mesmo longe, ainda dele“. Ora, pois! Não, eu não admiti tal ousadia sobre ela. Mas vamos entrar num acordo.

Lembro de sempre, durante rodas de conversa, ao ouvir procedências machistas, questionar o indivíduo sobre o porquê de ele(a) pensar assim. O questionamento leva a descobrimentos, tira-nos da zona de conforto sobre aceitações criadas, conhecidas, aceitas com passividade. Preferi deixar lá atrás questionamentos, perguntas “no ar”, pois tenho breves esperanças de que alguém, em algum lugar no mundo, se pegará tentando respondê-las para além do conformismo e naturalidade do “sempre foi assim” e, mais uma vez, perguntar-se-à: por quê?

Quanto à minha mãe, quero sua liberdade no papel. Sim, é muita coisa sim. Mesmo quanto a um “mero divórcio”. Parece pouco, parece besteira, parece vitimismo demais, mas para nós, mulheres, muitas vezes, é muito.  Há mulheres para muito além das minhas paredes perdendo suas vidas por nem a isso terem direito.  É morte. É feminicídio. É posse. É patriarcado e é machismo. É a milenar hierarquia masculina. Então fico feliz por poder oferecê-la tal possibilidade. Pela mulher que nos criou sozinha dá para fazer algo. Dela para si. Porque ela não é de ninguém, é tão somente dela mesma.

Qual o seu Faz de Conta?!

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Há um tempo passei a colecionar Faz de conta. E percebo que não é apenas um privilégio meu.

O cotidiano traz uma série de diálogos dos quais sequer temos algum controle, ou vocês acreditam que esse nervosismo preconizado por duas setinhas azuis em um aplicativo não deixa explicita a nossa necessidade por controle?!

O faz de conta começa aqui, com toda a cultura do blasé, de não se importar, de não querer demonstrar que precisa do outro, de dizer o que não quer.  Ou seja, aqui temos o faz de conta de que não se importa.

O contraponto dessa realidade é aquela forma de forçar sentimentos, de fazer-se presente apenas em momentos satisfatórios e felizes, de dizer que estará junto, mas, na primeira oportunidade: cadê? Aqui, é o faz de conta de que se importa.

É uma linha tênue e com toda a sede de viver deixamos passar atitudes importantes. É mais fácil procurar outra pessoa, dizer que não está ali, não viu e até excluir do grupo de amizade.

E vamos nos penitenciando por sentir? É isso mesmo que as pessoas querem, colocar distâncias por “não conseguirem encarar os medos”? E segue-se sem dar ao mundo o nosso sentido.

Há vontade de olhares de amor, esquecer a confusão do dia a dia e dar aquele salto para a realidade, para diálogos no plano concreto, para porquês e entregas. Ter na vida a realidade numa velocidade menos massacrante.

Talvez você descubra que já deveria ter dito coisas ou silenciado algumas vezes,  de tempos em tempos passamos por situações que nos fazem pensar, por exemplo, em quantas vezes desatamos, desconversamos, perdemo-nos….

“Perde-se também é caminho”

Descubra o seu e volte se preciso for.

Gabriela visita Ah!gnes.

Sobre a depressão:

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Ninguém nunca vai entender o que é a depressão até passar por ela. É um fato, nem a pessoa com mais empatia do mundo vai ser capaz de entender um depressivo.
Ele sente seu corpo doer, seu coração pesa, sua alma é machucada, e aí, na maioria das vezes ele acaba externalizando essa dor, como? Ah, existem várias formas, ele grita com as pessoas que estão ao seu lado e muitas vezes só querem ajudar, ou, como na maioria das vezes, ele se corta. E aí, com o tempo, conforme as cicatrizes vão aumentando, ele percebe que carrega no corpo, literalmente, todas as vezes que desejou morrer. Continue Lendo “Sobre a depressão:”

Não é bad!

É medo do futuro, medo do excesso de passado e cansaço do presente. É se sentir sozinho mesmo estando cercado de pessoas. É não ver motivos para levantar amanhã, ou pra sair da cama. É não suportar você mesmo e sua existência, é sentir-se um fardo. Continue Lendo “Não é bad!”

30 segundos para conjugar o verbo amar

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“Entre as diversas formas de mendicância, a mais humilhante é a do amor implorado.” CDA

E assim poderia começar mais um daqueles textos em que a mocinha diz não querer mais amar a vida inteira, como se o fato dela ter corrido atrás de certo rapaz representasse, de fato, amor.  A aventura é justamente essa, não correr, desacelerar, descobrir-se para depois desencontrar. Continue Lendo “30 segundos para conjugar o verbo amar”

Tudo bem não estar bem, amiga.

410.jpgTenho dito muito sobre a arte de silenciar. É! parece confuso. Precisamos guardar todas as nossas metas, fingir que não estamos lutando, parecermos sempre felizes e compartilhar apenas histórias agradáveis; apenas pelo fato de ninguém, ou quase ninguém, estar disposto a realmente escutar a resposta da pergunta “Tudo bem?” Continue Lendo “Tudo bem não estar bem, amiga.”