Onde quer que esteja, lhe desejo flores amarelas…

flores-amarelas

 

Gosto de flores. Especialmente as amarelas. Elas me trazem a sensação de liberdade, infinitude e pureza que não sei traduzir em palavras. Como se amanhecesse cada vez que as vejo e as cores de sol me entorpecessem a alma. Há tão poucas coisas capazes de nos roubar os substantivos… Assim como poucas vezes na vida faltaram-me palavras para expressar o que deveras sentia.

Ainda me lembro da última vez em que me senti como no meio de um campo de flores amarelas sem saber o que dizer, tomada por um bálsamo de sensações luminosas e extraordinárias. Fora um clarão, mas não amarelo. Esse tinha um castanho claro, da cor de mel… O mesmo que me adoçara a boca e a vida, por pouco tempo, mas como nunca. Lembro-me como ontem. Esse campo tinha  traços e trejeitos travessos, que pareavam com uma calmaria imensa. A mesma calmaria de quando disparava-se no fundo dos meus olhos e parecia puxar para dentro, como se me quisesse guardar num potinho de vidro e não deixar sair nunca mais, porque lá fora o mundo é ruim, é indiferente. Lembro-me de caminhar nesse campo sob a chuva; tinha um castanho profundo e singular, daqueles que só te encantam uma vez na vida, se acaso alguém te canta e te beija com lábios doces de sorvete de abacaxi, com ou sem querer, numa noite de julho, depois de envolver-lhe nos braços.

Andar num campo de amarelo florido é alegria… A mesma de quando alguém ri e não se contém: as pernas em alvoroço, sacudindo, como se cócegas as tomassem ao ser agraciadas pelo riso frouxo. Já andei nesse campo de amarelo florido. Era liberdade; como a de aventurar-se sem planos nem pecados, apenas as vontades súbitas que tomam a gente e nos faz encher a mochila e vagar por ai. Ah!… tantas outras sortes mais devem ter tido a chance de caminhar por aquele campo em tardes chuvosas de agosto, preguiçosas, como alguém que rola em cima de um colchão na sala, assistindo a um filme, com o acompanhamento de um bom vinho tinto e salgadinhos, feito criança abraçada ao ócio. Eu já fui essa criança que não queria desgrudar do abraço. Nem sair daquele campo. Quem inventou que abraços curam, não inventou, apenas profetizou. Abraço e flores amarelas, ouso dizer. Reavivar a alma tem lá seus segredos, sejam eles abertos ou confessados somente durante a madrugada, sob cobertas, cafunés e falas mansas, em papos amenos de acalentar corações.

Há muito não ando por aqueles campos cor de mel. Há muito o abraço de cura das lonjuras, do qual carece uma criança, não me apetece o coração e o corpo. Há muito minhas mãos não abandonam em vagos bolsos letras de canções que me faziam lembrar o semblante ou escrever poemas sobre como é sentir a gentileza de um pedido de abraço na cama, quando bem podia sê-lo sem prenúncio. Há muito meu cheiro não faz estadia, nem sussurro mais absurdos nos ouvidos daquele âmago. Mas tem jeito: uma oração. Nem que seja a última, pra salvar meu coração.

Não, este não desassossega pelo tempo passar, não há alvoroço por não mais presenciar, nem melancolia por recordar. Não sei se é ainda o mesmo campo, se continua a sustentar as lindas flores, como as que recebi na volta, por lembrança de minha imagem ou se as cortou, para que o vento não as sopre mais, assim como eu fazia; quem vai andar ou quem já foi, se os pássaros ainda aparecem subitamente e cantam só por estarem perto, não sei.

Independente das passagens e dos passageiros, dos andantes que ainda caminharão pelas terras desse campo, que sua liberdade seja ainda crescente, que contagie e provoque belos e largos sorrisos ao se espalharem por entre suas trilhas, que encante, quando por ti se apaixonarem uma vez mais e que doe-se completamente ao viajante, entregando-lhe as flores que encontrar no caminho, que mesmo pedindo – e mesmo podendo – abrace-o com suas folhagens, sem mais nem porquê, no meio da noite, com seu cheiro de jardim moradia e conversem sobre como seu colorido encantou, mas não tanto quanto aquela presença inquietou e cativou-lhe as veredas com sua meiguice e cabelos.

Que os dias da independência sejam sujeitos apenas pela beleza de sentirem-se deslumbrados por estarem sob sua mira cor de mel e envoltos por suas flores e perfumes. Não sei mais onde encontrares, nem quem vagueia por entre tuas vias, mas não importa. Ainda que não se atine sobre suas extensões e províncias (e o quão fabulosas são), onde quer que esteja, lhe desejo turistas ociosos a vagar por seus atalhos, a proteção de um escapulário, os encantos inesperados das noites estreladas de julho, as chuvas das tardes preguiçosas de agosto e muitas, muitas flores amarelas…


Ester Barroso

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Autor: Ester Barroso

Ciao! Poetisa, 22 anos, paraibana, estudante de Letras - Português pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), idealizadora da página Moça, você é mais poesia que mulher e extensões. "Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo." [desconhecido]

2 comentários em “Onde quer que esteja, lhe desejo flores amarelas…”

  1. A energia transmitida em todo o texto é maravilhosa me fez sentir melhor por estar naqueles dias preto e branco onde qualquer flor colorida nos faz sentir bem.
    Desejo a você e a todos o arco-íris todo! O mundo colorido é energizante! Parabéns 😀

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