Vida em rascunho

 

desenho (2)

Sinto-me em um esboço particular do pensamento leviano que me persegue frequentemente em minhas madrugadas de insônia, é como seu eu, puro rabisco, migrasse de um canto ao outro procurando sensações nunca sentidas. Sinto-me esperar a ponta do lápis percorrer sobre minha vida e como arte criar a obra mais bela que se poderia conhecer. Mas sei que sou só estilhaço dos desejos de uma alma melindrosa, que o meu canto nada mais é que o grito de socorro enaltecido pelos desejos dos ouvidos que me escutam, pois a arte tem quase que o dever de nos transportar para um lugar doce, e eu, meio amarga, me embriago ao aceitar o desafio.

E no ponto inicial mais uma vez, estupefato da reação que me acompanha tento seguir arrastando o meu lençol pelos corredores buscando as respostas para os meus questionamentos. Talvez eu me questione demais, eu sei, mas se não fosse, não poderia retribuir as minhas expectativas, eu tenho a necessidade de saber do que eu realmente necessito, estou cheia de supérfluos, quero dizer, estou vazia, completamente vazia, esperando que algo surpreendente venha e me encha, apenas encha, não quero que transborde, não quero deixar escapar uma gota sequer de oportunidade, seria muito desperdício.

Quantas vezes não nos imaginamos vivendo em um livro? E se você fosse um livro, qual seria a mais insana das aventuras? Eu diria que assumir-se, somos feitos de tantas máscaras e tantas fantasias, que assumir-se, assim, de cara, seria até escandaloso. Falo sério! E logo faço referência a essa mania inquieta de mostrar-se mais brilhante, digo, a mania inquieta de não mostrar-se mais brilhante, (Convenhamos que nenhum diamante chama-nos atenção trancada em um cofre) logo que, para mim particularmente o melhor não está no igual, que é o que se é vendido, isso é ridiculamente monótono. Gosto de ser quem é e o que sou, aprendi isso a pouco, eu sei, mas já me sinto a vontade a falar que quem quer que seja que tente me decifrar agora, saberá que eu gosto do inusitado. Inusitado no sentido de não estar no cânone, no sentido de ser a exceção, de ter medo, mas não vergonha de se mostrar, ter medo é natural, é estar vivo, ter vergonha é automutilação. Perdoem-me o argumento, mas não vejo de outra forma.

E posso afirmar isso como Galileu afirmou que a Terra era redonda, pela observação, através da vivência, e por que não experiência? Sim! Quem disse que apenas os anciões podem dizer isso? E se isso for uma regra, bom acabo de escapar a ela, pois sou sim da polaridade oposta, nunca vi pilha de dois extremos negativos. E não ache que estou diminuindo quem pensa o oposto a mim, é obvio que não! Acredito que há alguma razão para existirem os dois lados da moeda. Se olhar no espelho é bom e eu gosto, mas prefiro bem mais me olhar fora dele, fazendo coisas das quais nem sempre o meu reflexo é capaz de me acompanhar, todo mundo sabe inconscientemente que o que a gente procura nos olhos das outras pessoas, nos sorrisos, nas histórias, nas dores, nos amores, é um pouco de nós. A verdade é que a gente nasce com esse dom de ver história em tudo, de se atrair pelo oposto, o que a gente busca o tempo todo é descobrir que somos o oposto também.

Nestes rascunhos em que vivo encontro vários traços, vários riscos, alguns pontos, uns petiscos, e procuro rimar de vez em quando, pra ver se a página fica mais colorida, se ganha vida e sai voando por ai, pra finalmente me fazer entender que a arte mais bonita está criando a obra esperada, que o lápis, como a bailarina, tem na ponta do pé o jeito certo de bailar e que os meus gritos de socorro, fundos como um poço, ecoa ao mundo o que eu tenho a afirmar: o enlevo procurado, a beleza mais amena, está na arte de viver sem pestanejar. É difícil, e eu sou prova viva disso, mas não custa parar, respirar e tentar.

Hulle Horranna

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