Sufoco

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Todas as lâmpadas já se encontravam em estado de sono profundo, exceto a luzinha vermelha da televisão que ficava piscando pra mim. Virei para o outro lado, a parede me observava, observei-a. Sentei-me diante dela, curiosa, ergui meu braço ao seu encontro, ela tocou os meus dedos, estava fria, morta.

– Você não vai dormir?

Aquela voz me puxou de volta para a cama, o Nando sussurrava com aquela voz baixa e grave, olhos ainda fechados, o rosto amassado do atrito com a fronha do travesseiro.

– é a insônia novamente… – eu disse

– Deita aqui, eu te abraço.

Deslizei sobre o lençol já enrugado da minha inquietação, me acolhendo entre seus braços quentes, que logo, tornaram-se imensamente pesados. A luzinha vermelha continuava piscando, aquilo me hipnotizou por algum tempo, parecia um coração a pulsar, tentando sobreviver. Tentei sair discretamente de dentro do abraço do Nando, mas antes do primeiro esforço, ele virou para o outro lado – que alívio! – suspirei. Continuei a olhar para a luzinha vermelha, ela olhava para mim, senti-me observada, olhei para o Nando, sono profundo, olhei para o lado direito, e deparei-me com aqueles olhos que pareciam querer me engolir, eu sempre tive olhos grandes, mas agora eles pareciam saltitar.

O ar condicionado secava a minha boca, esqueci-me de levar a água para o quarto, a luzinha vermelha voltou a me chamar – quero viver – eu quase que podia ouvir a pronuncia das palavras somente pelo ritmo das piscadas – quero viver – ela dizia. À minha esquerda, a parede branca, imóvel. Estiquei meu braço mais uma vez, minha mão foi ao seu encontro. Estranho. Levantei-me, sem ao menos calçar o chinelo, segui até o criado mudo, abri a gaveta, peguei-o.

Agora a parede não era somente branca, o vermelho dominava. A luzinha já não piscava mais, a parede continuava fria, mas havia um calor em suas marcas, ela estava morta, precisava de uma janela para viver, paredes sem janelas são agressivas, eu já não ouvia a luzinha vermelha, mas eu lia, impressionada, a mensagem estampada naquela branquidão – quero viver.

*****

– você poderia relatar o que houve aqui?

– é confuso, ainda não consigo entender. Ela estava inquieta ontem à noite, jantamos fora, ela pediu vinho tinto. Ela sempre preferiu o branco. Dançamos. Voltamos para casa cedo, eu estava exausto, pois passei o dia inteiro terminando a janela do nosso quarto, ela não conseguia se acostumar, ela sempre reclamava de falta de ar. Dormimos. Hoje acordei com a claridade que vinha da janela, quando me virei para seu lado, a janela aberta, pensei que estaria acordada, sentei-me ligeiramente e vi o reflexo do seu corpo jogado ao chão, exatamente como vocês estão vendo, nua, o batom vermelho na mão direita, e por todo o seu corpo, essa frase esquisita, fiquei em choque, conferi seus sinais, e imediatamente liguei para a polícia, não consigo entender o porquê, nem o como, e em minha mente, perambula a frase que cobre agora o seu corpo – quero viver.

Hulle Horranna

 

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