Bela, recatada e “do lar”: o dia em que minha mãe perguntou se podia usar um short curto

cigarro

Um dia minha mãe e eu decidimos ir ao supermercado. Ela foi até o quarto fazer aquele ritual de escolher uma roupa para vestir, mas breve, como sempre. Estava sentada na cozinha quando ela chegou vestida com um shortinho de malha que ia até mais ou menos metade da coxa. Então depois de olhar de cima, analisando como havia ficado, ela me perguntou: “Ester, será que eu posso ir com esse short ou será que “pega mal”?”

Sim, mãe, você pode ir com esse short. Você pode, inclusive, combiná-lo com uma blusa de alcinha, uma camiseta até os joelhos ou amarrada com um nó na cintura. Você pode ir de saia curta ou até o tornozelo, usando uma rasteirinha, chinelos ou um salto agulha de 15 centímetros. E ai daquele cara na rua se te desrespeitar. Seu cabelo pode estar amarrado, em tranças, rabo de cavalo, solto, loiro, branco, verde, azul, roxo, rosa, cacheado, crespo, raspado, liso, cortado até o pescoço, na altura do bumbum ou até “joãozinho”, como antes, sem medo de dizerem que fica masculinizada demais ou parecendo lésbica. Quem tem a ver com nosso cabelo, nossa identidade e como isso nos faz sentir, independente de nossa sexualidade, não é?

Por falar nisso, e se, depois de tanto tempo sem um companheiro, você quisesse ter um relacionamento aberto, com um homem, uma mulher ou ainda escolhesse ficar sozinha, como agora, pois você sabe que não precisa de uma companhia afetiva para encontrar felicidade nas pequenas coisas da vida? Você pode. E quem é a sociedade pra ditar de quem nosso coração deve ou não gostar? Sim, mãe, você pode. E se quisesse ter mais um filho, independente de um casamento ou namoro? Sim, mãe, você pode. Há tantas alternativas médicas para se conseguir ou até mesmo pela adoção… Não ligue para a opinião da sociedade ou daquelas vizinhas que, quando por elas passa, todas se calam e fuxicam baixinho quando a senhora vai distante. Elas não a conhecem como a conhecemos, portanto, de nada sabem. Ter um filho não deve depender do pensamento e aprovação daqueles que não fazem parte da nossa vida. É algo pessoal e você pode escolher entre o não e o sim, ainda que te custe a beleza de um corpo (a mesma que sei não lhe importar se o assunto é gerar uma vida).

Gordurinhas a mais ou a menos, quem dita como deve ser o seu corpo, mãe, é você. Não ligue para essas propagandas de televisão, nas quais exibem mulheres com corpos esculturais, cabelos maleáveis e sorrisos de dentes tão brancos, que mais parecem ter sido lavados a água sanitária, querendo enfiar goela abaixo cremes de redução de medidas, maquiagens e perfumes para nos transformar em mulheres  espetaculares  mais aceitáveis socialmente. Eles só querem vender, independente de como a gente se sinta com nossas imagens, afinal, para eles, quanto mais buscamos a perfeição, melhor. Eles enriquecem, nós enlouquecemos (e gastamos), tal é a lei. Independente disso tudo, você pode escolher entre ficar gordinha ou emagrecer. Você pode escolher entre começar uma dieta na segunda-feira da próxima semana, ou da outra, amanhã ou hoje mesmo, assim como pode escolher ficar sentada no sofá, assistindo, descabelada, de pijama ou  sutiã, agarrada com um pote de sorvete e biscoitos, embora saiba que não faria, pois prefere uma alimentação saudável, mas entre A ou B, saiba que você pode. Desde que, claro, quando na TV começar a passar aqueles comerciais ditadores da beleza, você mude de canal imediatamente.

Sabe o que mais você pode? Sair, viajar, se divertir. Sei que não gosta muito dessas coisas, mas, se decidir fazer, só fique sabendo que você pode. Pode viajar sem culpa (embora eu imagine que para uma mãe é complicado, ainda mais quando se trata de você). Nós, seus filhos, já somos bem grandinhos pra nos cuidar enquanto você está fora, e também poderemos conhecer os mesmos lugares depois, então, se decidir fazer, mãe, você pode. Sozinha ou acompanhada. Você pode.

Pode escolher sair à noite, prum barzinho, uma dança, enfim. Eu sei que não faria, eu sei. Mas se acontecer de querer, mãe, você pode. Pode tomar uma cerveja, mãe. Um vinho, um uísque, uma caipirinha, pode tomar cachaça, afinal, provar bebidas é errado? Pode pedir para ter seus momentos sozinha (sim, eu sei que não gosta e prefere estar conosco), mas se acontecer, mãe, você pode. Pode se namorar, pode se masturbar, o que é um tabu imenso, sobretudo para nós, mulheres, o que é inaceitável, pois em se tratando de homens, é tido como normal, então, porque para nós seria imoral? Pode se tocar, pode conhecer, mãe. Pode se arrumar, usar batom da cor que quiser, seja ele nude ou vermelho encarnado, assim como seu esmalte. Pode usar brincos de pérolas, pedrinhas ou de argolas, pode escolher entre se depilar ou não – e isso vai desde suas partes íntimas até as pernas, sobrancelhas e axilas – só depende do que gostar e de como se sente bem.

Sabe o que mais pode? Pode ser uma executiva, uma engenheira, médica, costureira, uma pedreira, uma encanadora, uma cientista, uma escritora – com direito a usar seu próprio nome e não um pseudônimo masculino -, pode ser dona de empresas, gari, vendedora de doces, doméstica, dona do seu lar ou pode ser essa porra toda, bater no peito e exclamar “I’m the Boss!”. Você pode.

Bem, na verdade eu só disse que “é lógico que pode!”. Mas essas coisas todas me vieram à mente no instante em que a vi voltar ao quarto pra terminar de se arrumar e que baixei a cabeça sorrindo pela pergunta, como se pensasse “Ah… se ela soubesse tudo o que pode…”.  Pela pressa eu não tive tempo de dizê-la tudo isso naquele instante, mas agora estou dizendo. Mãe, você é mulher e ser mulher não significa inferioridade ou imoralidade contida naquilo que se quer fazer por nos fazer feliz. O que sinto é viver em meio a um povo que não faz o que quer por medo de ofender ou de não agradar. Nossas atitudes em relação à nossa felicidade ainda ser pautada na aprovação de terceiros por medo de soarmos/parecermos imorais? Pasme!!!

Escrevi isso pela senhora e por tantas outras mulheres que têm suas mentes manipuladas ou sendo prejudicadas por padrões, machismo e normas sociais sem sentido que as diz que se fizerem isso ou aquilo é imoral, é errado, “não é coisa de mulher que se preze”, montam uma imagem de “mulher pra casar” e outra de “puta”. Mãe, mulheres: “PUTA” é o estado de espírito em que fica a vida, vendo “tanta babaquice, tanta caretice dessa eterna falta do que falar”, como diria Cazuza. Ou seria melhor dizer que é por  tanta falação demasiada? Mãe, você pode ser a bela, recatada e do lar sendo tudo isso e muito mais.

E sim, mãe, eu sei que não faria NEM METADE dessas coisas, pois não são muito a sua praia e também porque há coisas que não faria por não gostar, nem por fazer parte do seu “eu”. Mas… só queria dizer que, se algum dia lhe der na telha de jogar tudo pro alto e resolver fazer qualquer uma dessas coisas, nos perguntando ou não, mãe, simplesmente saiba que VOCÊ PODE!


Ester Barroso.

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Autor: Ester Barroso

Ciao! Poetisa, 22 anos, paraibana, estudante de Letras - Português pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), idealizadora da página Moça, você é mais poesia que mulher e extensões. "Se eu gosto de poesia? Gosto de gente, bichos, plantas, lugares, chocolate, vinho, papos amenos, amizade, amor. Acho que a poesia está contida nisso tudo." [desconhecido]

2 comentários em “Bela, recatada e “do lar”: o dia em que minha mãe perguntou se podia usar um short curto”

  1. Moça..
    Você é SENSACIONAL!
    Isto retrata não só a sua realidade, mas assim como a minha também, de muitas outras pessoas. BELÍSSIMO texto. Lindo, Lindo!
    Grata sua mãe, ter uma Filha poetisa assim como você =]

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