Mais um sábado

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Eu poderia dizer que é só mais uma tarde de sábado, o sol quente lá fora com toda a sua expansividade, o céu límpido e azul esbanjando a sutileza divina, eu poderia ainda dizer que é apenas uma tarde de sábado como outra qualquer, que me exibe toda a sua paixão através das grades que me cercam. É verdade, eu poderia dizer qualquer coisa! E dentro de qualquer coisa cabem tantos mundos aos quais eu seria capaz de te transportar apenas com algumas palavras, porém eu continuo aqui na minha janela, dentro deste espaço quadrado com uma imensidão de papéis que não contam história alguma; tão concretos que me impedem de voar para além da assinatura de um contrato.

É difícil lhe dar com essa inquietação que nos atormenta nos fins de semana, é como se por obrigação tivéssemos o direito de ser feliz, de fazer algo novo, de traçar outro rumo. Empolgação típica de finais, finais de anos, de relacionamentos, de livros… São incontáveis finais, talvez seja por isso que repentinamente temos sensações de inacabado, pois estamos sempre renovando, ou ao menos planejando recomeçar. Isso me faz lembrar-se do trem, de seus trilhos, da multidão transeunte, que por vezes parecem gigantes com seus passos pesados, tentando desmoronar qualquer pedacinho de nós, mas logo me dirijo à próxima e a próxima estação, e me esvazio de tudo o que não acrescenta, ou ao menos quase tudo, é difícil se desapegar até mesmo daquilo que não nos faz bem.

As lembranças, por exemplo, é algo que me intriga imensamente. Como pode ousar flutuar em meu espaço algo que não me pertence? Como quem tenta ludibriar meus pensamentos e me lançar numa biblioteca de livros rasgados, onde as histórias se confundem e as páginas caem do alto aleatoriamente formando pilhas e pilhas de páginas com lembranças de coisas que eu não vivi e que talvez nunca viva. Como posso eu mesma criar armadilhas para me aprisionar inconscientemente nessa cadeia de excessos? Se for capaz de me enganar tão facilmente e me deixar levar por esse turbilhão de pensamentos confusos e sem nexo algum, talvez eu não me mereça.

No entanto a astucia e a engenhosidade fazem parte da inteligência, tal qual me seduz mais que qualquer curva arredondada, o que preciso é tentar entender-me melhor, afinal, não da para se prevenir daquilo à qual não se conhece e talvez seja esse o meu maior defeito, viver buscando qualidades em outrem. E se tudo o que procuro estiver aqui? Quanto tempo terei perdido revirando gavetas vazias? Quanta energia gasta correndo atrás de hologramas? Mas talvez isso faça parte do auto conhecimento, e se formos mesmo o reflexo do que vemos? Então eu sou o reflexo do que vi e do que vivi, ou tudo isso seja o reflexo de mim, mas seja o que for quero fazer valer, e isso não será possível dentro do meu confortável quadrado.

Às vezes me permito mergulhar nessa bolha de questionamentos e até me esqueço do quão frágil são essas paredes que me cercam, me esqueço que apenas uma alfinetada pode me levar à liberdade e que o custo é barato, mas o medo do risco ridiculamente caro.

E assim a gente morre e mata, morre por que viver significa transbordar, quebrar barreiras, ir em frente e avante, morre por que viver é amar e quem tem medo não ama, pois o amor é o maior risco de nossas vidas, é entregar seu coração nas mãos do caçador e desejar profundamente que ele não o coma, viver é acreditar que sempre haverá um lado bom por trás de tudo. E mata pelo mesmo motivo, como em um efeito dominó, onde uma coisa leva a outra, é muito daquilo que dizem por ai “ou é oito ou oitenta”, sem exageros, só há o extremo das duas pontas, quem não tem amor não é capaz de amar e isso causa magoas que levam a outra ponta do extremo, estar no meio desta linha é ainda pior, pois os extremos ou morrem de amor, ou morrem por falta de amor, os medianos morrem dos dois e matam pelos dois.

Ora, não se enganem quando falo de amor, me refiro à serenidade que descrevi da minha vista da janela, da tranqüilidade do azul celeste que invade o nosso dia e dos sorrisos que vemos nos olhares daqueles que tentam de tudo para esconder sua doçura e não parecer frágeis. Refiro-me, a ingenuidade da natureza ao mostrar sua beleza todos os dias a um monte de abutres selvagens, a música enfim que tenta elevar nossa alma, fazendo-a sentir-se leve o bastante para flutuar e sair bailando pelos ares da imaginação. Recuso-me a chamar de amor todos aqueles atos egoístas de desejo, paixão e obsessão, como se tudo o que existe pudesse ter um dono, ou fosse de autoridade de alguém, é dos olhos das crianças que falo, dos pés descalços na areia, falo de tudo aquilo que não se pode pagar, roubar, ou qualquer ato de propriedade, me refiro à conquista, e não só de pessoas, mas também de sensações, ocasiões, etc.

Talvez eu consiga perceber que o que eu procuro numa tarde de sábado é a simplicidade, isso mesmo! A felicidade é construída por etapas, e se eu quero começar novamente então que seja dando um passo de cada vez, assim como uma criança, que desengonçada tenta dar seus primeiros passos, e sorri pela sua pequena e valiosa conquista, e como já diz Leoni, “no fundo é simples ser feliz, o difícil é ser tão simples”.

Hulle Horranna

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Um comentário em “Mais um sábado

    Isaac Guedes disse:
    30 de abril de 2016 às 14:15

    Maravilhosa, perfeito, impressionante…

    Curtido por 1 pessoa

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