“Minha menininha”

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urso

 

“Que doçura de criança, deixa eu segurar”

Enquanto o pastor reza o culto

Pra senhora não cansar

Feche os olhos

Comece a orar

Enquanto olho sua filha

E a embalo devagar

Compro um doce

Dois ou três,

Vamos até a vendinha

Mais uma vez.

 

Amanhã vou lhes visitar

Ai levo um brinquedinho, uma boneca

Pr’essa garotinha eu agradar.

Gosto demais de lhe dar atenção.

Obrigada, mamãe, por me deixar brincar

Com ela aqui, sentadinha no chão.

Vou embora, mas amanhã volto.

 

“Filhinha, vem cá, tem gente querendo lhe ver.”

Ora, a maldade, quem imaginaria

Que tal coisa se esconderia

Por trás de gestos nobres de um ser?

“Vem brincar comigo!”

Não quero. Não gosto de você!

 

Embaixo das camas nunca foi assustador

Pra quem corria

E se escondia

Pra escapar de outro pavor.

Talvez dentro do banheiro…

Em prantos, sentada, que horror.

Embaixo da porta tem dinheiro

Pra me agradar e eu deixar de aperreio

E sair. De volta pro colo daquele senhor.

 

Até que um dia ele me chamou

Pro seu colo e fez com que eu sentasse.

Papo vai, papo vem com a mamãe, me desenhou

Com a ponta dos dedos nas minhas costas, em disfarce…

Até que os dedos desceram. Eu gelei.

Mamãe não percebera nada

Mas assustei.

Seus dedos entrando no meu short, acariciando.

O lobo em pele de cordeiro se aproveitando.

Quem poderia imaginar?

 

Mas sempre fui desbocada.

Depois de ido, corri pra contar

Desesperada.

Imagina o fuzuê.

Minha mãe, boquiaberta, sem saber o que falar,

Meus tios revoltados, querendo matar.

Não houve denúncia,

Prometeu se afastar

Foi a regra imposta,

Melhor não se arriscar.

O tempo passou, ele se afastou.

Fiquei sabendo que tinha ido embora.

Rio, Sampa, Acre, não importa, acabou.

 

Anos depois bateu em minha porta

Querendo me rever.

De novo me escondi, fazer o que?

“Vai embora ou chamo a polícia!”, ameaçaram.

“Sumiu no oco do mundo”, me contaram.

 

Mais um tempo depois, acredite se quiser:

Estava na esquina da escola, de bicicleta

Esperando pra me ver.

Uma, duas, três vezes ou mais.

 

“Pode ir comigo até a esquina, por favor?”

Medo de andar sozinha…

Busquei ajuda de novo, sem nenhum temor

E hoje não sei por onde ele caminha.

Não queira saber de mim

Não sou sua menininha.

 

 

No passado tive sorte de abrir a boca, achar ajuda e me livrar.

Mas hoje e amanhã quantas mais serão vendadas,

Suas bocas tapadas, mãos presas e pernas escancaradas,

E, já sem ar,

Não terão muito o que fazer, já que nesse país, a culpada pode ser você

E a impunidade rola solta,

Junto com agressores e demais indivíduos

Sem respeito

Enquanto nossa autonomia e liberdade

Amordaçadas pela iniqüidade

Definham com nossos direitos.

 


• Ester Barroso.

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