Talvez você nunca tenha amado de verdade.

Dizem que só se ama uma vez na vida, e que o amor é tão tranquilo e atemporal, como andar de mãos dadas com alguém por uma calçada qualquer, ou deitar a sombra de uma mangueira num dia de sol, enquanto sente a grama acomodar a inquietude da alma.

Nunca senti nada parecido com isso, particularmente. Não que eu já não tenha me apaixonado perdidamente. Que já não tenha chorado de saudade e me declarado de peito aberto, mas nunca vivi nada tranquilo. Nada que fosse digno de ser chamado de amor.

Quando pequeno, achava que as pessoas se conheciam de forma grandiosa, como se elas soubessem: “Hoje será o grande dia! Vou acordar, tomar café e encontrar a mulher ou o homem da minha vida”, e aquilo seria documentado por histórias para os seus descendentes como se fosse um filme de romance clássico. Hora, local e roupas adequadas para um parque, um restaurante ou uma livraria. Qualquer ambiente digno de selar um pacto de almas que sabem dançar sozinhas, mas resolveram fazer isso em dupla.

Não há uma mecânica lógica, não há lugar, não há espera e é justamente por não poder haver procura que, os que procuram, jamais serão encontrados.

Mas eu? E eu? Bom, eu sou apenas uma estática, um parágrafo de Zygmount Bauman que observa a liquidez das relações humanas. Um medroso bastardo do capitalismo que ao invés de tentar viver na sombra do acaso, se acostumou a orar pelo santo Tinder e escolher alguém para conhecer antes mesmo de escolher a roupa.

Nunca comprei flores para a minha mulher, nunca fiz um bolo para o meu marido e nunca escolhi o nome dos meus filhos, porque a única relação egoísta que cativei, até hoje, foi a procura. Procura essa que me fez ver que relacionamentos podem ser vistos como produtos, a partir do momento em que você escolhe alguém para sair em um simples toque na tela do telefone e o tempo de entrega é de 15 minutos, no máximo.

Por outro lado, as experiências acabam amaciando o coração que, já cansado de apanhar, não vê outra alternativa a não ser continuar batendo.Acho que só é complicado de entender porque é simples de ser vivido, a gente é que dificulta, que impõe as manias, os obstáculos e os pré-requisitos.

Quisera eu, ao menos uma vez, sentir o sabor desse néctar dos deuses, porque comer o pão que o diabo amassou, todos os dias, cansa meu amigo.

Quem sabe uma hora ele chegue, cruzando meu olhar por alguma esquina, me perguntando se prefiro biscoito a bolacha, ou se gosto de pizza requentada no café da manhã. A única coisa certa, é que a única coisa errada que se pode fazer é esperar pelo “felizes para sempre”, sem nos dar conta que o “era uma vez” é tão oportuno quanto ganhar na Loteria. O curso natural do destino é quem dita às regras, portanto somente ele pode nos surpreender nas curvas.

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Autor: José Lúcio Dos Santos

Publicitário e escritor gaúcho morando em São Paulo. Taurino com ascendente em Charles Bukowski e lua em Clara Averbuck. Prefere finais a inícios; bolacha a biscoito e barzinho a balada. Adorador de noites de temporal, cerveja gelada e cavalos. Dono da Lola, tio da Malu e filho do Nico.

4 comentários em “Talvez você nunca tenha amado de verdade.”

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