Quando alguém não te quer mais.

A gente se faz de cego para não enxergar aquilo que o coração dos outros não sente.  Faltam sinais que demonstrem interesse, toque, vontade e prazer. É como assistir a implosão de um prédio que contém coisas valiosas para nós na parte de dentro, sem poder fazer absolutamente nada. E não se trata de joguinhos de sedução e coisas desse tipo, pelo contrário, acabamos tomando um xeque-mate, sem aviso prévio. Perdemos o chão e a vontade de sair de casa, por um bom tempo.

A angústia nos acolhe como uma velha amiga e acaba nos fazendo reféns de uma saudade que já não podemos matar. Nada, absolutamente nada, consegue nos alegrar. Conhecer alguém novo, de novo? Fora de cogitação! Pelo menos não enquanto não lermos nosso manual de instruções e defeitos, mais uma vez, tentando encontrar o erro. Entramos no automático, foda-se o trabalho, os planos pessoais e as contas. Nada mais importa, a não ser o descaso de quem poderia ter ficado e mesmo assim resolveu partir.

Parece que os cheiros, as músicas e os lugares estão cheios de remorsos que preferimos evitar. Aprendemos a contemplar o teto do nosso quarto, em busca de algumas respostas que pudessem dar cabo de tamanha tristeza. Qualquer coisa seria melhor do que esse sofrimento vitalício que não pagamos para receber tão instantaneamente.  Ensaiamos sorrisos falsos para acompanhar as possíveis perguntas sobre a pessoa:

– Como está o fulano? Lembrei de vocês esses dias! Quando virão nos visitar? Estamos esperando vocês lá em casa, hein?

A cara de paisagem se transforma enquanto passa aquele maldito filme na cabeça, e temos vontade de comprar uma passagem só de ida para a puta que pariu. Algum tempo depois e ainda parece que foi ontem.  É inconcebível caber em tamanha solidão e afagar a tristeza em alguns litros de álcool ou maços de cigarro, não adianta, já era.  O tempo se arrasta como cadeiras pelo chão da sala, fazendo barulho.

É preciso seguir adiante, um passo por vez e um dia por semana. A gente sabe que a culpa é toda nossa por depositar tamanha vontade nos outros, mas acaba esquecendo que o perdão  para ela também é. E é justamente por isso que não nos damos conta de que mesmo que o tempo fique nublado pelos próximos dias, haverá sol por, pelo menos, 2/4 do ano.

Chorar é necessário e sofrer não é opcional, nem ferrando.  É inútil tentar explicar e buscar conselhos milagrosos que nos digam que é apenas uma fase e que iremos nos acertar. Estamos nos fazendo de palhaços, ao mesmo tempo em que colocamos fogo em nosso próprio circo. O melhor é deixar quieto, continuar o silencioso e longo caminho ao esquecimento daquilo que não escolheu caminhar ao nosso lado, sem alardes. E quando menos esperamos, o destino se encarregará de topar a nossa loucura na de alguém que irá nos fazer agradecer por termos  acertado antes.

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Autor: José Lúcio Dos Santos

Publicitário e escritor gaúcho morando em São Paulo. Taurino com ascendente em Charles Bukowski e lua em Clara Averbuck. Prefere finais a inícios; bolacha a biscoito e barzinho a balada. Adorador de noites de temporal, cerveja gelada e cavalos. Dono da Lola, tio da Malu e filho do Nico.

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