Quando me lembro de ti.

Saudade é uma das poucas coisas da vida que a gente mata pra morrer de novo, eu sei.  Ainda mais para um imediatista dos sentimentos como eu, que não sabe ponderar desejos e disfarçar desgostos. Mas ela era diferente, era como uma incógnita, dessas que a gente nem tenta entender pra não torrar os miolos sobre o travesseiro. Uma daquelas faltas boas, que me fazem rir no meio de expediente, um caso debochado demais para ter qualquer intenção séria, que não fosse algumas horas de boas risadas, contempladas por um sexo espetacular e assuntos cotidianos.

Vais fazer o que amanhã à noite? Tu vens até a minha casa ou eu preciso passar aí te buscar?

De uma forma ou de outra, sempre dávamos um jeito de encaixar nossas loucuras, mesmo que fossem na minha cama de solteiro ou no banco de trás do carro. Eu dedilhava o corpo dela com a firmeza de um homem e a curiosidade de um guri. Sempre cheia de curiosidades, contava aos quatro cantos que precisava viajar o mundo, conhecer pessoas novas e aprender um francês que fosse digno de entonar tamanha pressão sobre os lábios. No fundo eu sempre soube que nem o mundo seria capaz de colocar cabresto sobre aquelas vontades.

Quero dormir com o teu cheiro, me dizia enquanto vestia uma das minhas camisetas velhas. Que sandice a minha, tentar compreender aquela guria parada na janela do meu quarto, vislumbrando um horizonte escuro e cheio de estrelas genéricas, que piscavam entre os prédios vizinhos.  Não podíamos deixar qualquer resquício de compromisso, apenas aqueles programas mal educados, que puxam pelo cabelo e dão tapa na bunda, enquanto mordem a nuca. Nada de cinema, almoço em família ou apelidos carinhosos.  Talvez fossemos apenas estranhos que se tornaram amigos de infância, de uma hora pra outra.

O tempo passava rasteiro enquanto ela pegava no sono, embalada nos meus braços. Logo era hora de ir. A realidade a acordava no meio da noite, junto com umas 4 chamadas perdidas da mãe, querendo saber aonde estava a dita cuja.  E lá íamos nós,  apurando o passo para recolher os cacos, sem deixar vestígios.

Ia embora mais uma vez, sem que eu a pedisse pra ficar. E mesmo assim, a vi voltar centenas de vezes, até que o rumo dela não cruzou mais pela minha esquina. Se o destino quis assim, quem sou eu para querer o contrário? Foi ser feliz? Não, definitivamente. Isso ela  já era antes de me conhecer.

Só me sobraram algumas músicas boas do Caetano, que ficaram no meu telefone, um shortinho surrado que esqueceu no meu banheiro e a certeza de que não precisamos começar algo, justamente para que ele nunca termine.

Foto: Luana Moscardini

 

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Autor: José Lúcio Dos Santos

Publicitário e escritor gaúcho morando em São Paulo. Taurino com ascendente em Charles Bukowski e lua em Clara Averbuck. Prefere finais a inícios; bolacha a biscoito e barzinho a balada. Adorador de noites de temporal, cerveja gelada e cavalos. Dono da Lola, tio da Malu e filho do Nico.

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