O vendedor de doces (Conto)

semanasemcarroonibus1_f_002Imagem: noticias.uol

O vendedor de doces

 

Estava eu no ponto de ônibus defronte ao Shopping Butantã. O ônibus veio, parou, abriu a porta para dois passageiros; aproveitei e fiz o pedido:

— Ei, motor! Posso vender uma balinha lá atrás?

— Vai lá!

O motorista abriu a porta de desembarque. Corri e entrei.

— Obrigado, motor! — agradeci.

Havia mais assento do que passageiro, mas, na verdade, eu queria mais uma carona rumo a Pinheiros do que realmente vender. Eu queria voltar para Pinheiros para depois descer vendendo pela Francisco Morato até ao Shopping Butantã. Era o trajeto circular que eu fazia. Sim, eu vendia doce no ônibus. O calendário roçava o Natal e eu precisava urgente fazer uma grana para comprar um tênis digno; caso contrário, teria eu que suportar as provocações dos colegas do bairro. O Natal desse lado de cá servia apenas para duas coisas: ver quem calçaria o tênis mais caro e quem beijaria a mais gata da região. Eu era virgem de mulheres; carregava no currículo um mero beijo na boca que me foi dado por uma senhorita caridosa, mais por dó do que por qualquer outra coisa. Então eu precisava vender bastante até a véspera.

Entreguei a mercadoria para a pequena quantidade de passageiro (tinha seis), depois voltei até o começo, perto da catraca, coloquei minha caixa no chão e fiz o discurso:

— Boa tarde, pessoal! Um minuto de atenção, por favor! Passei entregando na mão de algumas pessoas produtos de qualidade… O amendoim japonês, crocante, com pele, da Mendorato e o amendoim salgado, sem pele, da Grelhaditos… Uma unidade é cinquenta centavos, duas unidades por um real. Tenho também deliciosíssimas balas de goma, que são três unidades por um real… Quem puder contribuir com o meu trabalho, eu agradeço, quem não puder, agradeço da mesma forma. Que Deus abençoe a todos… Tenham uma ótima viagem. Obrigado!

Comecei a recolher a mercadoria. Não vendi nada! Já esperava por isso… Sentei-me no último lugar do lado esquerdo, de quem vai para o fundo do ônibus. Abri uma bala de goma e comecei a comer. Subitamente, uma senhora, que fazia parte daqueles seis passageiros, levantou-se e veio ter comigo:

— Que você tem aí mesmo? — ela perguntou.

— Tenho amendoim e bala de goma, moça.

— Quanto custa o amendoim?

— Um por cinquenta, dois por um real.

— Quero dois.

— Do sem casca ou o com casca?

— Um de cada.

— Certo.

Assim que me abaixei para pegar os amendoins, ela se sentou ao meu lado. Achei estranho.

— Aqui, moça.

— Deixe-me pegar o dinheiro. Um real, né?

— Isso!

Lentamente ela começou a procurar a grana em sua bolsa.

—Você trabalha para alguém? — ela perguntou.

— Não, não. Trabalho por conta própria.

— Quantos anos você tem?

Muito estranho.

— Dezessete.

Por fim, entregou-me a grana, mas continuou me perguntando:

— Legal… Você consegue tirar quanto por dia?

— Depende do dia… Tem dia que tiro cinquenta reais de lucro, às vezes cem, cento e cinquenta. Ultimamente está fraco o movimento.

— Que faz com o dinheiro?

Aquelas perguntas começaram a me encher, pensei em me levantar, dar o sinal e descer, mas aguentei, no fundo queria ver até onde ela iria cavar.

— Compro comida, roupa, essas coisas. Preciso fazer quatrocentos reais até a véspera de Natal para comprar um tênis, mas está difícil.

— Que tênis caro, não?

— É, é.

Pensei que a conversa morreria aí, mas não.

— Você namora, menino?

— Namoro!

Menti.

— Hum!… E onde você mora?

— Moro no Paraisópolis.

Menti de novo.

— Paraisópolis favela?

— Isso.

Ela se levantou, deu o sinal e voltou a se sentar.

— Bom, descerei no próximo ponto. Gostei de você, menino. É bonito, tem um sorriso lindo e parece que sabe fazer bem a coisa. Vou deixar esse cartão com você, eis aí o número de meu celular. Se por acaso você não conseguir os quatrocentos, não hesite em me ligar, comprarei para si. Em troca, você já sabe…

Claro que eu sabia! Era virgem, não bobo, merda! Levantou-se. O ônibus parou, abriu a porta de desembarque e ela sumiu. Jesus, como fiquei sem reação! Fitei o cartão por um tempo, depois o guardei no bolso da frente de minha calça jeans. De supetão, comecei a dar socos no encosto do assento da frente e a ponderar coisas como: “Porra, cara, ela quer trepar com você e, ainda por cima, dar-lhe a droga do tênis que você tanto precisa… Mas olhe só, você não sabe como fazer a coisa…”.

Quando o ônibus terminou de atravessar a Ponte Bernardo Goldfarb, dei o sinal. Desci e caminhei rumo à Rua Cardeal Arco Verde. Aquela mulher não me saia da cabeça. Ela devia ter uns quarenta e tantos anos. Era baixa. Branca. Cabelos e olhos bem escuros. Estava com vestes de gente que não morava no meu bairro… Com certeza não era mulher para se jogar fora. O que eu temia era o fato de eu não ter experiência com mulheres e o… Bem, aquele convite poderia ser alguma armadilha. Ela poderia ter alguma doença, sei lá.

Na Cardeal havia outros três vendedores. Esperei minha vez. O ônibus intermunicipal que anunciava “Itapecerica da Serra” parou no ponto para pegar os passageiros que deram sinal, como rotina do meu estranho ofício, fui ter com o motorista:

— Ei, motor! Posso vender uma balinha?

— Não vai dar, tem fiscalização hoje.

— Tudo bem…

Abaixei a cabeça e saí dali amuado. Esperei o próximo ônibus. Veio o que anunciava “Taboão, São Judas”.

— Ei, motorista! Posso vender uma…

Antes de eu terminar, ele fez que sim com a cabeça e abriu  a porta de desembarque. Neste ônibus só consegui vender um real; o movimento estava mesmo fraco. Desci no ponto da Avenida Vital Brasil, chateado. Encostei-me com as costas numa parede de uma loja que estava fechada e comecei a contar o dinheiro. Sessenta e três reais. Só trinta reais de lucro!… Diabo! Pensei logo na proposta daquela senhora… “Não será nada demais, besta; você só precisará colocar essa coisa inútil dentro dela e ganhar o tênis que você tanto almeja. Você matará duas cobras com o mesmo pau: ganhará o tênis e deixará de ser virgem… Vale a pena, não?…”, ponderei. Quando terminei a ponderação, meu corpo agiu sem ordem maior: foi a um bar e comprou um cartão telefônico de vinte unidades, depois foi ao orelhão mais próximo e discou o número que estava no cartão.

— Alô! — ela atendeu.

— Oi, moça! Sou eu, o vendedor de doces.

André D’ Soares
Delírios de um escritor miserável

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