Sobre a depressão:

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Ninguém nunca vai entender o que é a depressão até passar por ela. É um fato, nem a pessoa com mais empatia do mundo vai ser capaz de entender um depressivo.
Ele sente seu corpo doer, seu coração pesa, sua alma é machucada, e aí, na maioria das vezes ele acaba externalizando essa dor, como? Ah, existem várias formas, ele grita com as pessoas que estão ao seu lado e muitas vezes só querem ajudar, ou, como na maioria das vezes, ele se corta. E aí, com o tempo, conforme as cicatrizes vão aumentando, ele percebe que carrega no corpo, literalmente, todas as vezes que desejou morrer.
A dor alivia, porque as emoções são tantas e tão bagunçadas que a dor física é um alivio emocional, e no momento em que ele se corta ele não pensa em mais nada além de ver aquele liquido vermelho que jorra por suas veias, lento… vida. Essa sensação de sentir o sangue escorrendo é como um entorpecente, é como se alguém do além viesse e te dissesse: calma, vai ficar tudo bem. Até que você termina e olha para o lugar aonde se cortou e vê a besteira que fez, mas no momento, aquela besteira, parece ser o erro mais certo da sua vida.

As coisas, para um depressivo, são completamente diferentes do que para as outras pessoas, ele sente tudo mais intensamente. Há um conflito constante entre seu emocional e seu racional, por mais que seu racional diga que tudo vai ficar bem e que as coisas vão se ajeitar, seu emocional só te prova, dia após dia de que você está perdido e de que ninguém pode de ajudar a se encontrar.

Ele toma remédios, ele faz terapia, ele tenta rezar, ele faz de tudo, mas nada adianta, e aí, se ele acredita em Deus, ele começa a questionar o porquê de tudo isso, o que ele fez para merecer algo assim. Algumas pessoas pensam que podem comparar e classificar a dor e as doenças das outras pessoas, como por exemplo, quando dizem: “ah, mas fulano tem câncer e ainda quer viver, você tem que levantar dessa cama!”, “se você tivesse alguma doença mais grave você saberia o que é sofrer de verdade”, mas eles não fazem noção de que o depressivo pensa mais nisso do que qualquer um, ele acha que o que ele está sentindo é frescura, ele não quer causar mais problema pra ninguém, e por isso, ele pensa diversas vezes em morrer. Eu não estou dizendo em uma ou duas vezes, estou dizendo que esse pensamento passa por sua cabeça diariamente, a todo momento, por mais que talvez não seja verdade, ele pensa que o mundo ficará melhor sem a sua presença. E aí, depois de tentar de tudo, depois de se esgueirar pelas frestas que a vida te propõe a caminho da felicidade e falhar, ele começa a tentar realmente se matar. Pensa em todos os métodos. Faca, lamina, remédios, tiro, pular de algum lugar alto… Mas tudo parece distante demais, até para ele acabar com todo o sofrimento se torna uma tortura. E ele não sabe o que fazer, porque ele também se importa com as pessoas que estão ao seu lado, e aí, ele entra num dilema: ele vai continuar vivendo estando morto por dentro só para não magoar as pessoas que estão a sua volta ou ele vai realmente dar fim a todo o seu sofrimento causando uma mágoa eterna nas pessoas que ele ama? Ninguém consegue entender esse desejo, e o depressivo se vê mais uma vez sem saber o que fazer.

Ele não tem vontade de fazer nada, ele não vê mais graça em nada, tudo que ele faz é no automático, porque se ele parar para pensar no que está fazendo é capaz de se enfiar numa crise existencial no meio do caminho para o metro. É não ter nada na cabeça, é só enxergar o preto nas coisas. Ele sente, mas ao mesmo tempo não sente nada, e fica nessa agonia, ele espera sempre o pior, espera que sempre a pior coisa aconteça, e aí, começa a tal da ansiedade, o coração palpitando, as mãos soando, o coração (literalmente) doendo. Essa ansiedade, ele espera que algo aconteça, sem motivo nenhum, e ao mesmo tempo, ele vê motivos em tudo para que qualquer coisa aconteça.

Sua vida não tem mais graça, as coisas que ele gostava de fazer perdem o brilho, em alguns casos o amor salva e resolve, em outros, ele só vira mais uma preocupação: será que ela está comigo só por dó? Será? Será? Perguntas que nunca terão respostas.

Ele começa a achar que tudo isso é um grande exagero e começa a tentar encontrar graça na vida novamente, ele começa a beber, começa a se drogar, começa a fazer qualquer coisa para que a vida volte a ter cor. Mas adivinha? Também não funciona.

É como uma dor de cabeça, que fica latejando toda hora, 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano, até que uma hora ela acaba. Pelo menos eu espero que ela acabe. Eu não sei como, e não sei quando, só espero que seja breve, que seja rápido, que seja como um tiro (piada sem graça, né?), mas falando sério, que seja de uma vez. Porque se não passar, o depressivo vai continuar com aquela vontade de sumir, enquanto ele tenta fingir para todos que tudo está bem, que ele está melhorando e que não há nada com o que se preocupar. Mas você, sem precisar ir muito fundo, sabe que nada está bem, você sente vontade de sumir, de se jogar, de não viver, de sumir, de não existir, de simplesmente tirar a porra dessa dor de dentro de você. Mas sabe… É como dizem: Relaxa, afinal de contas, depressão é doença de gente rica, é doença de quem não tem o que fazer. Ouvi dizer que ela passa, por enquanto, o depressivo continua depressivo, e isso são só  boatos.

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Autor: Mariane Santos

Observadora das coisas cotidianas, busca encontrar poesia até numa massa de pão (e que massa linda a que nós estamos falando, hein); observadora das sutilezas poéticas que cercam as pessoas; estudante de comportamentos humanos na escola da vida; aquela que decidiu não decidir, escreve para mostrar que as pessoas carregam coisas que não sabem, ou ignoram, e ela não esta falando de... ah, deixa. Ama cerveja mas sabe como apreciar um bom café.

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